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sexta-feira, 8 de julho de 2011

Vendi tudo que tinha lá


Vendi tudo que tinha lá .


Lá é um lugar escrito para mim
que só conheci nos desejos
em lampejos
em conversas poucas
em versos que perdi

é um lugar túmulo
que morreu antes de  eu saber
onde voltarei
para me dar, no mínimo,
um pertencer

não é longe
está ao meu alcance
mas requer
voz
chamar meu nome
ancestral

compõe comigo em sonho
permite que eu diga
que descubra 
o véu
a margem dos lagos errados
e veja o meu lugar  

não mete medo
está fora de si
entende  a semelhança de gostos
faz poemas como eu


explica sobre a barba por fazer
olha rosa ( olho de quem não pode ficar)
sorri com seus cabelos brancos
palpita sobre os manejos do tempo
as caricaturas nos muros do sono
abre a minha boca num bocejo
dobra as pálpebras com pesar
e eu penso
que não há problemas no mundo
valeu cada segundo
e
até já


Editando:

"Vendi tudo que tinha lá  " era um verso , um primeiro verso de um poema  extenso feito pelo meu avô.  Ele o recitava para mim quando eu era criança e eu trocava qualquer  brincadeira para ouvir aquele Senhor tão sonoro, com palavras mágicas e capazes  de me levar a lugares inimagináveis.
Era funcionário público  do Tribunal , igual a mim. Fazia versos como eu . E deixava seus versos  em algum lugar para cuidar de sua família de numerosos membros.

"Vendi tudo que tinha lá"  comove o meu coração na medida em  que me resgata no tempo. Eu não lembro dos demais versos . Mas ficou este   e eu o trouxe comigo . Não tenho recibo das   doces memórias  e do patrimônio de palavras marcantes que cicatrizaram no meu peito( É como se eu também tivesse vendido tudo que tinha lá e partido em viagem para outra cidade em busca de melhores dias )

Traz a força da coragem, da mudança  e  da confiança em agir, investir e escolher.  Levou com ele a família  para a Capital   fazendo deles bem sucedidos doutores .Dedicou a  sua neta  mais distante  seus versos guardados( não os alienou )

Lá, tem sentido profundo para mim e me faz refletir numa régua do tempo  alongada( alargada  pelas minhas complexas reflexões) onde posso ver o meu avô falecido e seu passado e  a mim mesmo olhando para frente  .

Pertencer é de grande importância  e continuar a existir  se ajusta a essa idéia  como um lego de encaixe.

Sonhei com meu avô  e desejei guardar este momento  e essa lembrança.

A barba por fazer parece tão  familiar , um descanso da pele    até que eu acorde de manhã  e o veja  saindo , da minha imaginação , sonho e sono, "gomadinho" para o trabalho .




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5 comentários:

  1. Lá tráz pra cá essa brisa leve feita de versos teus. Volte sempre pra lá, para que cá seja sempre belo.

    Xêro!

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  2. O lugar é lindo e a poesia muito bem escolhida...

    eijinhos

    Maria

    ResponderExcluir
  3. Pronto, tá explicado tudo!
    Por isso você escreve tão maravilhosamente bem e tem esta veia poética em seu peito.
    Adorei a poesia, adorei o modo como você falou de seu avô e enalteceu sua memória.
    Ele deve estar sorrindo neste instante em alguma estrelinha neste firmamento.
    beijos, cariocas, geladinhos

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  4. Leila, ontem mesmo lembrava de uma historieta repetitiva muito interessante que meu avô me contava e que guardei quase mais no coração que na memória. Ontem pensava em colocar n facebook , outras pessoas podem saber desses versinhos, e que hoje, grande senhora, os eio com novos ouvidos e um olhar a sacar um maior significado para aquela gostosa brincadeira.
    Tão coincidente com teu sonho com a presença do teu avô tão marcante na tua vida. quanto coisa voltam à tona quando a roda gira e o tempo se morre na prática desse nosso cotidiano, aí vemos o quanto é rica essa vida de trás que nos faz rodar para frente e esse rito de passagem nos faz redimensionar o quanto somos capazes de fazer mudanças e isso pra mim é a maior prova de auto-estima que cultivamos.
    beijão querida
    Vou te escrever.

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  5. Meus queridos , as palavras que gostaria de deixar para cada um de vocês fugiram para algum recipiente com boca de conta-gotas :

    pouquinhas , lentas e cheias de pausa .

    Vou ter que bater nas costas do vidro.

    Por enquanto, obrigada por estarem

    Beijões

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