Vendi tudo que tinha lá .
Lá é um lugar escrito para mim
que só conheci nos desejos
em lampejos
em conversas poucas
em versos que perdi
Lá
é um lugar túmulo
que morreu antes de eu saber
onde voltarei
para me dar, no mínimo,
um pertencer
Lá
não é longe
está ao meu alcance
mas requer
voz
chamar meu nome
ancestral
Lá
compõe comigo em sonho
permite que eu diga
que descubra
o véu
a margem dos lagos errados
e veja o meu lugar
Lá
não mete medo
está fora de si
entende a semelhança de gostos
faz poemas como eu
Lá
explica sobre a barba por fazer
olha rosa ( olho de quem não pode ficar)
sorri com seus cabelos brancos
palpita sobre os manejos do tempo
as caricaturas nos muros do sono
abre a minha boca num bocejo
dobra as pálpebras com pesar
e eu penso
que não há problemas no mundo
valeu cada segundo
e
até já
"Vendi tudo que tinha lá " era um verso , um primeiro verso de um poema extenso feito pelo meu avô. Ele o recitava para mim quando eu era criança e eu trocava qualquer brincadeira para ouvir aquele Senhor tão sonoro, com palavras mágicas e capazes de me levar a lugares inimagináveis.
Era funcionário público do Tribunal , igual a mim. Fazia versos como eu . E deixava seus versos em algum lugar para cuidar de sua família de numerosos membros.
"Vendi tudo que tinha lá" comove o meu coração na medida em que me resgata no tempo. Eu não lembro dos demais versos . Mas ficou este e eu o trouxe comigo . Não tenho recibo das doces memórias e do patrimônio de palavras marcantes que cicatrizaram no meu peito( É como se eu também tivesse vendido tudo que tinha lá e partido em viagem para outra cidade em busca de melhores dias )
Traz a força da coragem, da mudança e da confiança em agir, investir e escolher. Levou com ele a família para a Capital fazendo deles bem sucedidos doutores .Dedicou a sua neta mais distante seus versos guardados( não os alienou )
Lá, tem sentido profundo para mim e me faz refletir numa régua do tempo alongada( alargada pelas minhas complexas reflexões) onde posso ver o meu avô falecido e seu passado e a mim mesmo olhando para frente .
Pertencer é de grande importância e continuar a existir se ajusta a essa idéia como um lego de encaixe.
Sonhei com meu avô e desejei guardar este momento e essa lembrança.
A barba por fazer parece tão familiar , um descanso da pele até que eu acorde de manhã e o veja saindo , da minha imaginação , sonho e sono, "gomadinho" para o trabalho .
Lá tráz pra cá essa brisa leve feita de versos teus. Volte sempre pra lá, para que cá seja sempre belo.
ResponderExcluirXêro!
O lugar é lindo e a poesia muito bem escolhida...
ResponderExcluireijinhos
Maria
Pronto, tá explicado tudo!
ResponderExcluirPor isso você escreve tão maravilhosamente bem e tem esta veia poética em seu peito.
Adorei a poesia, adorei o modo como você falou de seu avô e enalteceu sua memória.
Ele deve estar sorrindo neste instante em alguma estrelinha neste firmamento.
beijos, cariocas, geladinhos
Leila, ontem mesmo lembrava de uma historieta repetitiva muito interessante que meu avô me contava e que guardei quase mais no coração que na memória. Ontem pensava em colocar n facebook , outras pessoas podem saber desses versinhos, e que hoje, grande senhora, os eio com novos ouvidos e um olhar a sacar um maior significado para aquela gostosa brincadeira.
ResponderExcluirTão coincidente com teu sonho com a presença do teu avô tão marcante na tua vida. quanto coisa voltam à tona quando a roda gira e o tempo se morre na prática desse nosso cotidiano, aí vemos o quanto é rica essa vida de trás que nos faz rodar para frente e esse rito de passagem nos faz redimensionar o quanto somos capazes de fazer mudanças e isso pra mim é a maior prova de auto-estima que cultivamos.
beijão querida
Vou te escrever.
Meus queridos , as palavras que gostaria de deixar para cada um de vocês fugiram para algum recipiente com boca de conta-gotas :
ResponderExcluirpouquinhas , lentas e cheias de pausa .
Vou ter que bater nas costas do vidro.
Por enquanto, obrigada por estarem
Beijões