Fala rápido,talvez uive e, aos golpes de vento, espalha significados distantes, as vezes ,incoerentes, com alguma sorte , contraditórios, proibidos e displicentes . Mas tão parecidos com o que sonhamos. Um perigo, talvez. Melhor nossa filha não andar com ele . Será comunista, xiita, mais velho, roubará o meu coração beato? meu sapato ingrato , sempre ao chão, ordenado com os passos que não se aventuram ?
Goela abaixo, estende uma toalha no chão, aparece de jeans surrado e confortáveis chinelos e parece um principe encantado que vai te salvar da torre , com aquele sorriso perfeito . Cheio de convites, de revides, de promessas. Ele não tem o esmerado currículo nem a grade acadêmica que pudesse tomar um chá com sua mãe embevecida. O verso sabe que ela faz sexo, sonha no jardim e já foi uma adolescente mais netuniana que você. Ele sabe em quem pensou quando viu o curioso peito aberto ao vento sem casaco numa tarde fria .
De alguma forma o verso sabe. Não o sabe o poeta
Há quem jogue suas tranças aos céus rogando que se acudam as velhas vocações maltrapilhas e arquivadas. Uns escutam o noticiário para estar ao par do que lhe confiscam e desejam repartir suas dores na fila das Financeiras. Mas todos se quedam comovidos com a fala de um poeta:
E agora José?Por ocasião da posse do Presidente do Supremo Tribunal Federal ,um verso de Cecília Meirelles finaliza o discurso guardando em meu coração as belas palavras pronunciadas com reverência pelo Ministro :
"liberdadeEmocionante, não?
esta palavra que o sonho humano alimenta
E não há ninguém que a explique
E ninguém que não a entenda"
Penso que o verso deve , de propósito ou astúcia, ficar poroso desse jeito,para abraçar macio , flexível , resiliente, para se afinar ou aceitar as linhas( mesmo que sem a elegância reta, mas espiralado, diagonal), tudo para ter cumplicidade com quem o lê e por acaso , a partir dele, sintonize algum pensamento.
Ao que parece , o verso deseja comportar-se como amigo de infância de quem fica perto dele, quer alguma companhia nem que seja de quem não gosta de poesia.
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