O amor também cria monstros que a paixão excita, mas que ele domestica afetuosamente.
As idéias estavam fugindo de mim como o diabo foge da cruz . Todas as minhas tentativas de segurá-las iam rio abaixo. Além disso, a internet não permitia conexão. Argh, argh, mil vezes argh!!!! Todos resolveram disputar os cantos frescos da casa com seus lap top de caras fechadas, emburradas e cinzas. Aliás , gente concentrada e egoísta é cinza.
-Um gravador !!!!! eu pensei , eufórica e apressada, esbarrando pelos móveis da casa . Ele com certeza poderia me guardar e me ouvir até exaurir suas pilhas. Com certeza uma boa saída, uma solução, afinal tinha um exército de versos e trovas ensaiando uma coreografia e uma inteligência de ocupação que requeria ação imediata
Entretanto não tinha pilha e a inspiração já ía falhando, arfava sem fôlego de me esperar. Tá legal!!!! uma folha de fichário, pelo amor de Deus!!!!!! Fiquei frente a frente com as linhas azuis na face branca do papel e a minha boa bic deslizante .
Tem gente que é que nem uma Bic, quase perfeita.
Mirei um jupiteriano parágrafo, apontei-lhe minha melhor vogal e .....nada!!!!
Mecanicamente desenhei uma letra convocando com megafones minhas mágicas palavras, meus sentimentos que gostam de namorar verbos ou alguma entrelinha. Nada , nada , nada mesmo. Apenas silêncio.
Meu teclado criou um monstro!!!! só podia!!!!
Descobri a pólvora, eis que diante de um papel fiquei lenta, descompassada e surda. Tinha acostumado a tamborilar por suas pernas, deslizar entre os QWERTS passivos e entregues, apertar sofregamente meus intervalos, saciando minhas fúrias, embolando meus cabelos entre deletes e backs sem nenhuma culpa dos desalinhos posteriores. A um paciente editar confessaria meus pecados.
Tem gente que te ouve como um Editar.
A tez de dez entre dez textos era feliz de abraçar cada pedacinho e quadra do ser, sem olvidar do menor sinalzinho, pinta ou relevo interessante, ficando a cada momento mais íntimo e mais perto de um ponto final , êxtase analgésico de uma redação .
Hábitos de entrega, talvez. O amor também cria monstros que a paixão excita, mas que ele domestica afetuosamente.
Da próxima vez eu levo meu papel ao cinema, pergunto-lhe como foi o seu dia , dou-lhe um outro papel de relevância e assentamento ou mesmo telefono para apenas ouvir um pouco sua voz e quem sabe possamos nos traduzir como antigamente.
Leila, que maravilha de texto! Menina, acontece isso mesmo, direto! A gente se acostuma de tal modo com o teclado que desaprende a pensar com um papel em branco à frente! E a letra? A minha anda um garrancho só, que nem eu entendo, letra de médico perde! Amei seu texto, vc escreve com alma, menina! Beijo grande...
ResponderExcluirNossa!!
ResponderExcluirÉ certo que não entendi completamente todo o sentido que queria passar!!
Mas acho que tem algo a ver com deixar o branco do papel eliminar nossas ideias!! Relacionado a deixar coisas velhas para trás, quietas como o pinguin da estante no Toy Story!
Bom, eu gosto de coisas tradicionais! Mas tudo com seu devido caso.
^^
Abraços!
Glorinha é isso , muitas vezes quando o papel exerce seu velho papel acontece um bloqueio. Um branco desconcertante, rsss Acostumei com o teclado. Quando pego a caneta roubo letras com a pressa de não perder a idéia
ResponderExcluirE quando se tem a idéia pulsando na cabeça e não tem como descrevê-la dá uma agoniazinhaaaaaaa louca !!!!!
beijocas, amore!
Oi Jeff, abraços!!!!
ResponderExcluirFiz um paralelo entre as coisas novas que surgem com as quais nos acostumamos por serem mais práticas, mais fáceis ou mais interessantes.
Por exemplo o teclado (representando o computador, com suas incríveis teclas de edição ) em confronto com o simples e velho papel em branco.
Eu me desconcertei ao estar de frente ao papel e não conseguir escrever tudo que me passava na mente. Se eu fosse falar , gaguejaria,rs
mas se eu teclasse depois eu me socorreria de um editar.
Como é meu estilo ser muito dúbia , inscrevi no meio da tagarelice o amor velho e o amor novo disputando um espaço nessa estória, reconhecendo que se deve também dar mais valor ao que se tem em casa pois qualquer hora não se terá em contrapartida um bom e provedor lugar para voltar ,um lugar para deitar um texto que tanto se quer escrever , um amor para se compartilhar.
Assim como o papel se calou de ciúmes e quem sabe se vingou de estar sempre disponível( não requer energia, conexão, etc), um amor esquecido em casa com o qual não se partilha um cinema, uma diversão ou uma companhia não será capaz de melhorar o seu caminho e a cada dia será menos ouvido e lento ou pior, mais sozinho.
Deixei entrelinhas que combinam com o que você achou também
Obrigada pela presença e comentário